A cada quatro anos, os municípios brasileiros precisam traçar um mapa para o futuro. Um plano que aponte onde serão investidos os recursos públicos, quais áreas receberão mais atenção e de que forma será possível transformar políticas públicas em ações concretas. Esse instrumento se chama Plano Plurianual (PPA), sendo um planejamento essencial que define as diretrizes, objetivos e metas da administração municipal para os próximos quatro anos. De certa forma, é uma espécie de contrato entre o poder público e a comunidade, pois orienta a elaboração da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e da Lei Orçamentária Anual (LOA). O PPA 2026–2029 de Canela tramita na Câmara de Vereadores desde agosto e está carregado de expectativas. Está previsto o investimento e despesas que somam R$ 1,23 bilhão no período. A projeção de investimentos anuais também demonstra crescimento ao longo dos próximos quatro anos. Em 2026, o orçamento municipal estimado é de aproximadamente R$ 280 milhões, chegando a cerca de R$ 340 milhões em 2029. Os recursos serão distribuídos entre secretarias estratégicas e fundamentais para atendimentos à população, como Saúde e Educação, até Agricultura, Turismo e a infraestrutura urbana. O mais de um bilhão calculado para os próximos quatro anos é um volume de recursos que, se bem executado, tem potencial para redefinir a qualidade de vida dos moradores e fortalecer ainda mais a posição de Canela no cenário regional e nacional. Um plano que fala de futuro Mas o que significa, na prática, a execução do PPA para quem vive o dia a dia em Canela? O PPA 2026–2029 elaborado pela Prefeitura deixa claro que a cidade aposta em um tripé: qualidade de vida, desenvolvimento econômico e modernização da gestão pública. A Educação e a Saúde, pilares centrais, recebem as maiores fatias, mas setores como Obras, Turismo, Assistência Social e Meio Ambiente também têm papel estratégico. Mais que um conjunto de números, o plano é um projeto de cidade. Se cada meta for cumprida, Canela terá até 2029 uma rede educacional e de saúde mais forte, uma infraestrutura mais moderna, uma gestão mais transparente e uma economia ainda mais dinâmica. Além de um documento técnico, o PPA é uma narrativa de futuro. Ele mostra onde o município está atualmente e onde pretende chegar até 2029. ELABORAÇÃO DO PLANO O secretário de Gestão Pública, Ismael Viezze, destaca como o PPA foi organizado. “Trouxe um curso de elaboração do PPA em que participaram em torno de 60 servidores, representando todas as secretarias. De acordo com o plano de governo definimos esses eixos e programas”, explica Viezze. “De uma forma mais ampla, mais transversal, esses eixos estão de acordo principalmente com as propostas que o plano de governo foi apresentado na campanha”, acrescenta ele. O secretário aponta que o PPA é o primeiro passo para o definição de metas que irão impactar no futuro de Canela. “A LDO vai definir as ações e as estratégias para 2026 e depois, em seguida, vem a Lei Orçamentária especificando e colocando a parte orçamentária com os valores de cada uma delas”, conclui Viezze. Saúde Com R$ 192,7 milhões, a Secretaria de Saúde tem o segundo maior orçamento do município. Os recursos asseguram a manutenção da atenção primária, dos serviços de média e alta complexidade, da Farmácia Municipal e da Vigilância Sanitária e Epidemiológica. Entre os destaques está a manutenção dos serviços hospitalares, com R$ 63 milhões, além do fortalecimento do SAMU, da rede de saúde mental, do Programa Saúde na Escola e do Primeira Infância Melhor. O objetivo é garantir atendimento ampliado, humanizado e contínuo, com foco na satisfação dos usuários do SUS. Educação, Esporte e Lazer Nenhuma área receberá tanto quanto a Educação. Com R$ 235 milhões, a pasta prevê a construção da nova sede da EMEIEF Santa Terezinha, a ampliação da Educação Infantil com a EMEI Adalberto Wortmann e a expansão do ensino em tempo integral. No PPA também estão reservados recursos para 7.308 vagas em convênios, manutenção do transporte escolar em todas as etapas e programas esportivos e de lazer que reforçam o desenvolvimento integral dos alunos. Infraestrutura e campo Com R$ 91,5 milhões, a Secretaria de Obras e Agricultura tem papel crucial em manter a cidade funcionando. Estão previstos investimentos em pavimentação, drenagens, revitalização de praças e parques, além da modernização da iluminação pública, que sozinha receberá R$ 21,4 milhões para a ampliação da rede de LED. Na zona rural, os recursos irão apoiar produtores, oferecer assistência técnica e estimular práticas sustentáveis, fortalecendo a agricultura local e a qualidade de vida no campo. Proteção aos mais vulneráveis Com R$ 63 milhões, a Assistência Social reforça seu papel no amparo às famílias em situação de vulnerabilidade. O plano assegura a manutenção dos Fundos Municipais de Assistência, investimentos no Conselho Tutelar e programas habitacionais que somam R$ 10,6 milhões, voltados a ampliar o acesso à moradia digna. Consolidando o destino Canela O turismo, motor da economia local, terá R$ 81,4 milhões. O PPA projeta crescimento anual de até 3% no setor e prevê a modernização da infraestrutura turística, apoio a eventos culturais e campanhas de marketing que fortalecem a marca “Destino Canela” no Brasil e no exterior. Mobilidade e Segurança A secretaria responsável pelo trânsito terá R$ 49,8 milhões para investir em sinalização viária, campanhas educativas, fiscalização e implantação do transporte coletivo urbano. O transporte escolar também terá novidades: sistema de rastreamento por GPS para aumentar a segurança dos estudantes. Sustentabilidade como eixo O Meio Ambiente contará com R$ 39,4 milhões. Entre as ações previstas estão a implantação de ecopontos, gestão de resíduos sólidos, campanhas de educação ambiental e estímulo ao uso de energias renováveis em prédios públicos. Também está prevista a criação de uma central de triagem de resíduos, reforçando a política de sustentabilidade. Eficiência na arrecadação Com R$ 58,6 milhões, a Fazenda municipal terá como desafio modernizar o sistema tributário, revisar o código de arrecadação e digitalizar processos administrativos. A meta é ousada: aumentar a receita em 15% ao ano, reduzindo burocracia e tornando a gestão mais eficiente. O peso dos compromissos
Tour de France recebe brunch especial do Festival de Gastronomia de Gramado
No sábado, 13 de setembro, às 10h, o complexo gastronômico Tour de France, localizado no centro de Gramado, será palco de um Brunch especial em comemoração ao Festival de Gastronomia de Gramado. A programação é voltada a convidados, organizadores, participantes do festival e jornalistas, e terá como destaques a Charcutaria do Spaccio RAR e a Pâtisserie do Tour de France, em uma proposta que une tradição, sofisticação e a identidade do complexo. Além da recepção no brunch, o Tour de France Gastronomie participa oficialmente desta edição do festival, que acontece de 12 a 29 de setembro com dois pratos exclusivos: um assinado pelo restaurante Tour de France e outro pelo Spaccio RAR. Ambos estarão disponíveis para venda através do site oficial do evento, e poderão ser degustados diretamente no restaurante durante todo o período do festival.Outra atração aguardada será o Festim Gastronômico no Spaccio RAR, que oferecerá um cardápio especial harmonizado, integrando ainda mais a proposta enogastronômica à programação oficial do festival. “Nosso objetivo com a participação no evento é combinar a alta gastronomia francesa, os sabores autênticos do Spacio RAR e a nossa curadoria sofisticada de vinhos, para reforçar nosso posicionamento como um dos protagonistas da cena gastronômica da Serra Gaúcha, ampliando o vínculo com iniciativas que celebram a cultura e a cozinha local em diálogo com a gastronomia mundial”, explica a proprietária do complexo Carolina Porsch. Castelo Saint Andrews traz os “Sabores de Havana” para Gramado O Castelo Saint Andrews será palco de uma noite única dedicada à essência de Havana. No dia 27 de setembro, gastronomia autoral, coquetéis icônicos, charutos lendários e rótulos de excelência se encontram em uma experiência sensorial rara e sofisticada. O evento contará com nomes consagrados da cena local: Orlando Blanco Blanco, proprietário do lendário Restaurante El Floridita — considerado o santuário do daiquiri em Havana —, estará presente trazendo sua expertise em coquetelaria clássica. Ao seu lado, Eduardo Lima, chef do icônico restaurante Xanadú, localizado na histórica mansão do magnata Irénée du Pont, assume a cozinha com um menu autoral que traduz os sabores de Havana com sofisticação. E para completar, o mestre torcedor de charutos Livan Reina Blanco, da La Casa del Habano El Monarca, conduz a experiência com os autênticos Cohiba Robusto, consagrados entre os melhores do mundo, em harmonização com rótulos Macallan e rum Havana Club. A programação será seguida de um jantar em cinco tempos no restaurante Primrose, onde o chef e o sommelier cubanos apresentam clássicos como Ropa Vieja, El Congrí e costela ao sous vide, finalizados pela sobremesa Dolce Señoritas, tudo harmonizado com vinhos brasileiros e coquetéis típicos como Mojito, Daiquiri de Morango e Piña Colada.
Social da Samanta – 693
João Richa e Caio Richa no Jogo Los Angeles Chargers x Kansas City Chiefs em São Paulo Foto: Divulgação Caio e João Richa, Pedro e Felipe Oliveira, Felipe Sartori, Enzo Souza e Vicenzo Zimmermann – Canela em peso no jogo da NFL em São Paulo Foto: Divulgação Cristais Na Semana Farroupilha, de 13 a 20 de setembro, a Cristais de Gramado presenteia os visitantes: na compra de dois ingressos, ganha-se o Coração Gaúcho, pingente de cristal nas cores do RS, criado em 2024 como símbolo da retomada do Estado. Graziela Franzen e a equipe do Containner celebrando o primeiro Jantar Vínico com o Chef Rodrigo Bellora. O jantar que teve como protagonista o vinho foi em celebração aos 10 anos do restaurante e 4 anos do Clube do Vinho Foto: Thais Buske Jairine Spier é a esteticista do Helluz Studio de Beleza, que inaugurou nesta semana Foto: Divulgação Tabatha Colla, profissional e pessoa incrível, nem clic belíssimo de Letícia Wolff! Foto: Letícia Wolff
Social da Bina – 693
Claudya Chanas é a mente criativa a frente da decoração do 40º Natal Luz de Gramado, que este ano promete muito dourado e muito brilho pelas rudas Foto: Cleiton Thiele/Serra Press JANTAR DO OÁSIS Está confirmado para o dia 18 de outubro o 3º Jantar Italiano em prol do Oásis Santa Ângela. O evento, que acontece no Clube Serrano, é uma realização dos Amigos do Oásis Santa Ângela e tem a finalidade de arrecadar fundos para a manutenção do tradicional lar de idosos. O convite tem o investimento de R$ 130 e pode ser obtido diretamente na Recepção do Oásis. Em Fernando de Noronha com a Brocker Viagens: as irmãs Maria Eloísa Parmegiani Coelho, Neusa Parmegiani Jahn e Patrícia Parmegiani Foto: Divulgação Guilherme Paulus reuniu seleto grupo de convidados da imprensa para apresentar as novidades em eventos e estrutura de seu Castelo Saint Andrews. O Sabores de Havana, evento com destaque para culinária, charutos, rum e whisky, foi apresentado pelo empresário Foto: Bina Santos A Churrascaria Garfo e Bombacha recebeu os empresários no último dia 08 para o Agregar Negócios com as anfitriãs Juliana Alano e Mariane Urbani Foto: Rafael Cavalli Christiane Zilio e Grazi Franzen no jantar vínico com o chef Rodrigo Bellora, em comemoração aos 4 anos do clube do vinho Foto: Divulgação
CANELA VISTA POR OUTROS OLHOS
E não é que Felipe Mazurana produziu um curta-metragem bem interessante? Esse canelense de 29 anos, que trabalha no marketing do Skyglass, sempre gostou de criação (é publicitário) e fotografia. Tinha um projeto de um documentário que, ao ser contemplado na Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura, saiu do papel e foi para o digital. Durante meses Felipe (na foto, gravando no Parque do Lago) captou as imagens de Canela que deram vida a Canela Flaneur. A figura do flâneur surgiu como um tipo literário do século XIX, o homem explorador urbano a vagar pelas ruas de Paris, como bem explicou o poeta francês Charles Baudelaire (1821 – 1867). O curta de Mazurana, onde a câmera é o flâneur, se destaca por ter uma proposta acessível e inclusiva, contando com legendas e linguagem simples, para que diferentes públicos letrados ou não possam apreciar a obra. O resultado é um pequeno mosaico de situações em que protagonistas o foram sem saber. O enredo é tão simples (Felipe diz inexistir) quanto pitoresco e apresenta a cidade de Canela com novos contornos, com um olhar poético sobre o espaço urbano. Alguém que exagerou na bebida… uma mamãe quero-quero… uma mulher à espera do ônibus… “situações infraordinárias”, chama assim o produtor. Canela Flaneur já teve duas exibições em Canela e você pode assistir na plataforma de vídeo Vimeo.com. O TALENTO DA TERRA BRILHA NA FRONTEIRA O Grupo Retruco foi quase à Argentina para mostrar a qualidade da melhor música gauchesca canelense. Na noite de seis de setembro, o coletivo nativista, formado por Léo de Abreu, Daniel Almeida, Bruno Rauber e Júlio César Oliveira, mais Gabriel Castilhos, conquistou o segundo lugar no 9º Festival do Candieiro Poesia e Canto, realizado no CTG Sinuelo do Pago, em Uruguaiana. Quase vencer um dos grandes festivais do Estado, com “Sina Encardida”, foi motivo de orgulho para Canela, evidenciando a qualidade dos artistas locais. A interpretação do cantor Bruno (à direita) – uruguaianense, por sinal – foi um dos pontos altos da apresentação, chamando a atenção do público e da comissão avaliadora pela força expressiva e pela sintonia com a proposta da canção, que em uma estrofe diz: Se eu pudesse escrever / Tudo o que penso / Que verso bem loco / Cada gole que desce / A mente enaltece / De tudo meio um pouco. FESTA NO INTERIOR São muito autênticas as festas tradicionais em comunidades interioranas, promovidas pelos moradores locais, muitas vezes distantes das sedes dos municípios. Muitas dessas festas, geralmente com apelo religioso e que resgatam tradições, após anos e anos congregando os locais se expandiram e passaram a atrair visitantes – primeiro os “do centro” das cidades, depois gente de outros lugares. Um exemplo são os filós italianos na 3ª Légua, interior de Caxias do Sul. Ao recebermos a visita da rainha e princesas do Kerb im Tannenwald, na localidade de Pinhal Alto, interior de Nova Petrópolis, tomo esse evento como outro bom exemplo. Após 20 anos ininterruptos de realização, atingiu o patamar de dispor de lei de incentivo. Ouvindo os depoimentos da corte, com a rainha Adeline Weber e as princesas Sara Freitas e Scheila Voltz, fica evidente o orgulho das moças em ser, antes de nova-petropolitanas, genuinamente do Pinhal Alto. Valorizam o seu chão e não pensam em abandonar a sua comunidade, mesmo interiorana. O Kerb im Tannenwald tem variada programação de quatro dias e acontecerá de 18 a 21 de setembro próximos. Saiba mais no Instagram @kerbimtannenwald. Júlia Corrêa Borges, dez anos, enfeita a página com seu orgulho e simpatia ao se formar no projeto Bombeiros Mirins de Gramado. Já tem nome de guerra: Borges. Ela ainda vai ajudar muita gente.
CADA SEGUNDO IMPORTA
No século XXI, o tempo tornou-se artigo de luxo. A pressa do cotidiano e a influência do mundo virtual afastaram as pessoas do convívio saudável e dos momentos de qualidade à mesa. Hoje, muitos buscam refeições rápidas, esquecendo que o ato de sentar-se para comer já foi símbolo de partilha, cura e criação de memórias afetivas. Na Bíblia, Eclesiastes recorda que há tempo para todo propósito, mas a sociedade moderna esqueceu essa verdade. Antigamente, a mesa era espaço de encontro, onde famílias fortaleciam laços e histórias eram transmitidas. Os restaurantes, que nasceram nos mosteiros com a missão de restaurar enfermos através da comida, perderam grande parte desse sentido e tornaram-se espaços voltados quase apenas ao consumo. A história mostra que civilizações se construíram em torno da mesa, onde o tempo dedicado moldava gerações. Recordações como os almoços de domingo, as risadas e as receitas tradicionais são tesouros que marcam vidas. Hoje, porém, o excesso de pressa e a vida virtual substituíram o calor humano, deixando uma geração carente de memórias afetivas. Sentar-se à mesa era, no passado, um remédio contra a solidão, a tristeza e até a depressão. O diálogo e a partilha davam sentido à vida, enquanto hoje muitos vivem em função de aparências e aprovação digital. Essa falta de tempo roubou o essencial: momentos de cura e afeto. O verdadeiro significado do restaurante deve ser resgatado: mais que um lugar de consumo, deve ser espaço de refrigério e encontro. Precisamos redescobrir o valor de parar, conviver e dedicar tempo às pessoas que amamos. Afinal, o tempo é efêmero, passa depressa e, quando findar, o que ficará serão as memórias que deixamos. Cada segundo importa. Criar tempo para estar à mesa, ouvir histórias e partilhar refeições é uma forma de resistir à pressa do mundo e reencontrar o verdadeiro sentido da vida. O convite está feito: sente-se à mesa, sem pressa, e crie memórias que permanecerão para sempre.Até breve.
Sabores de Muitos ‘Brasis’
Caro leitor Muitos já conhecem um pouco da minha história, e ela vem carregada de muitos lugares onde já morei, dentro e fora do país. Na minha linha do tempo, passei muitos anos no Nordeste. Enquanto era engenheira, viajava por todos os cantos do Brasil – todos mesmo! Então, há mais de 10 anos que eu não viajava por aqui. Férias, finalmente. Pouco tempo, grana curta… então resolvi “Nordestá”: férias no Ceará, em uma pequena cidade que já foi capital em tempos remotos, Aquiraz. Um resort gostosinho, que coube no bolso. Imediatamente comecei a rememorar os sabores que por aqui vivi. E, como nosso assunto na última coluna foi justamente sobre inspirações e sabores, remontei um quebra-cabeça sobre a diversidade que é nosso país quando tratamos deste assunto. Sabores estes que, a meu ver, conversam plenamente com o clima, os ecossistemas e a paisagem, mas falam muito de cultura também. Pois é, já inventaram a geladeira – desde 1834 temos essa criação que nos permitiu ousar e abusar quanto à disponibilidade dos alimentos à nossa mesa. Mas a carne de sol veio pra ficar, não mais pela necessidade de conservação, e sim porque a coisa é tão boa que, por aqui, não se vive sem. E a pescada amarela, que de igual só tem o nome mesmo, pois em cada lugar é um peixe diferente. E quem é que tem à mão um vidrinho de azeite de dendê só pra fazer uma farofinha? O leite de coco, esse vai por tudo. Mas a marca registrada mesmo é o uso em abundância do cominho e do coentro – alguns até usam, mas não é costume nosso, não. Essa culinária, para mim, é apaixonante. Aqui tudo tem muito molho, cortes grosseiros de cebolas e pimentões, e o caldo nasce ali, na panela mesmo, enquanto o peixe “se prepara”. No final, ainda rende um bom pirão: pirão de tudo, daquele caldo que se fez sozinho na panela. Em cada região do país temos diferentes nomes para coisas que acreditamos ser as mesmas. Berbigão, maçunim, sururu… todos moluscos bivalves comestíveis, mas não venha me dizer que são a mesma coisa, porque, na boca, eu sei que não são. Você vai comer, sim, um acarajé no RS, mas é uma baiana quem faz. E um cozido então, prato tipicamente alagoano feito com chambaril, eu tenho que preparar com osso buco mesmo. Sim, é o mesmo corte bovino, mas a diferença está na regionalidade do nome e em algumas coisinhas a mais. Por acaso você chama um amigo para ir em casa dizendo: “Vamos que vou fazer um bode”? Sem querer gourmetizar a regionalidade das coisas – transformar o tucupi em uma dashi ou inflar a tapioca pra ficar chique -, sabe que me deu uma vontade danada de, no Roteiros do Mundo, criar o Verão da saBrasilidade? Me ajudem dizendo se vocês são a favor e vamos passear por muitos “Brasis” no próximo verão. Respondam nossa enquete no Instagram do Vivamo e: Bon Appétit!
O conto da nota de cem
Na semana passada estive no jogo da NFL que a XP Investimentos trouxe, pelo segundo ano consecutivo, para São Paulo. A liga já deixou há muito tempo de ser apenas um campeonato esportivo: cada partida é tratada nos Estados Unidos como uma verdadeira celebração da cultura competitiva. Não à toa, tornou-se um dos maiores símbolos da economia mais próspera do mundo. Além do espetáculo, a NFL ensina valores e, principalmente, mostra como um evento pode gerar riqueza para toda uma sociedade. É natural que muitos brasileiros ainda estranhem o jogo. Para alguns, as regras são confusas; para outros, o esporte parece violento ou distante do nosso gosto cultural. Alguns até se perguntam: por que trazer a NFL para o Brasil? Mas os números respondem por si. Segundo a ESPN Brasil, na temporada 2024/2025 mais de 1,5 milhão de pessoas acompanharam os 90 jogos transmitidos. Só a partida deste ano, entre Los Angeles Chargers e Kansas City Chiefs, reuniu mais de 50 mil torcedores na Neo Química Arena. Eu já havia ido ao jogo de estreia, em 2024, quando Eagles e Packers se enfrentaram em São Paulo. Desta vez, cedi à insistência do meu filho e o levei comigo. Foi uma experiência incrível. A cidade estava tomada por turistas de diferentes partes do Brasil e do mundo. No hotel e nos restaurantes, cruzamos com gente de Minas Gerais, Mato Grosso, Rio de Janeiro, San Diego, Los Angeles e muitos da América Latina e do México. E todos consumindo bastante — como só os americanos sabem fazer. A circulação de pessoas se traduziu em números impressionantes. Estimativas da SPTuris apontam que a partida movimentou cerca de R$ 330 milhões na economia paulistana. Os turistas gastaram em média R$ 3.355,73 cada, com estadias de três dias. O evento já é o segundo mais lucrativo para a cidade, atrás apenas da Fórmula 1, e gerou mais de 12,5 mil postos de trabalho diretos. Ao ver tudo isso, lembrei de um conto que costumo contar nas aulas de investimentos para os alunos do primeiro ano do ensino médio da Coopec (claro que com adaptações). Ele mostra como uma simples nota de cem reais, circulando de mão em mão, consegue aliviar dívidas e reativar a confiança de toda uma comunidade. Assim também acontece com grandes eventos: quando o dinheiro gira, a economia respira. E, no fim, todos ganham. Segue o conto: “Em uma cidade, os habitantes, endividados, estão vivendo às custas de crédito. Por sorte chega um gringo e entra no único hotel. O gringo saca uma nota de R$ 100,00, põe no balcão e pede para ver um quarto. Enquanto o gringo vê o quarto, o gerente do hotel sai correndo com a nota de R$ 100,00 e vai até o açougue pagar suas dívidas com o açougueiro. O açougueiro pega a nota e vai até um criador de suínos a quem deve e paga tudo. O criador, por sua vez, pega também a nota e corre ao veterinário para liquidar sua dívida. O veterinário, com a nota de R$ 100,00 em mãos, vai até à zona pagar o que devia a uma prostituta (em tempos de crise essa classe também trabalha a crédito). A prostituta sai com o dinheiro em direção ao hotel, lugar onde levava seus clientes e que ultimamente não havia pago pelas acomodações e paga a conta de R$ 100,00. Nesse momento o gringo chega novamente ao balcão, pede sua nota de R$ 100,00 de volta, agradece, diz não ser o que esperava e sai do hotel e da cidade. Ninguém ganhou um vintém, porém agora todos saldaram suas dívidas e começam a ver o futuro com confiança!”
Eventos adiados e a palavra que substitui o compromisso
Há notícias que não chegam em palavras, mas em ausências. Acontecimentos que não se explicam pelo simples fato de serem cancelados, mas pela forma como se escolhe apenas “substituir o compromisso”. Em poucos dias, dois eventos foram modificados do calendário “oficial” ou empurrados para datas indefinidas e remanejadas, sem aviso prévio, sem diálogo, sem uma palavra que honrasse ao menos a expectativa criada. Estou falando do Festival Internacional de Teatro de Bonecos e da Feira do Livro Josué Guimarães. Um silêncio discreto, quase burocrático, tomou o lugar de anúncios que mereciam, ao menos, a dignidade de uma explicação, algumas justificativas até chegaram muito bem elaboradas, mas tardiamente. Boas narrativas protocolares. Não se trata apenas da suspensão de atividades culturais, trata-se da persistência de uma lógica antiga, na qual a cultura é vista como acessório, nunca como essência. Quando falta coragem para sustentar a palavra empenhada, é nela que se experimenta o esquecimento. Não é de hoje que a classe cultural experimenta esse descaso em Canela. Quando se trata de cortar, adiar ou abandonar, a cultura é sempre a primeira vítima. É como se fosse um luxo dispensável, e não o tecido vivo que costura identidade, memória e pertencimento. É fácil justificar com palavras bonitas: falta de recursos, dificuldades externas, imprevistos. Mas no fundo, o que vemos é a inversão da lógica, o argumento não é construído para explicar, mas para encobrir. É curioso notar como a retórica, herança dos tempos gregos, sobreviveu intacta em sua forma, mas esvaziada em sua substância. Falar bem tornou-se um fim em si mesmo, e não um meio de iluminar a verdade. Argumentos se moldam ao interesse do momento, não ao compromisso com a realidade. O discurso já não nasce do desejo de dialogar, mas da necessidade de persuadir. E a palavra, que deveria aproximar, transforma-se em muralha. Esse jogo de inversões, no qual a ausência é apresentada como conquista e o adiamento como avanço, não engana os olhos atentos. Pode até silenciar momentaneamente, mas não apaga a percepção de que falta algo essencial: coerência, compromisso, respeito. Porque a cultura não é ornamento, nem vitrine; é raiz, identidade, voz coletiva. Negá-la ou negligenciá-la não é apenas adiar um espetáculo, é comprometer a memória de uma comunidade inteira. Quanto desgaste coletivo! Porque afinal, a grande questão não é sobre datas remarcadas ou programações adiadas, mas sobre o que isso simboliza: a distância entre aquilo que se promete e aquilo que se cumpre. Entre a palavra que se anuncia e o gesto que se concretiza. Obviamente sabemos que uma Lei Rouanet não se capta em apenas dois meses antes do evento, compreendemos também que licitações, prazos e burocracias atrasam , trabalhamos com isso, mas o que nos é inadmissível é a forma como as decisões chegam, sempre de forma tardia, desrespeitando o organograma estabelecido e comprometendo o trabalho de toda a produção envolvida.
Semana Farroupilha: tradição e fé
(Unus actus fidei!…) Após o Concílio Vaticano II (25.12.1961 – Papa João XXIII), houve a permissão para que a liturgia em latim, usada até então, fosse traduzida e adaptada para outras línguas e linguagens (inclusive regionais). E foi bem aceito pelos cristãos da época… A Missa Crioula Em 1967, os padres Paulo Murab Aripe e Amadeu Gomes Canellas pediram autorização ao Bispo de Porto Alegre (Dom Vicente Scherer) e ao Vaticano (Papa Paulo VI), para a celebração de uma Missa “Crioula”, isto é, com orações, preces e cantos em uma “liturgia campeira”. Assim, nesse linguajar típico, na Missa Crioula, Jesus Cristo é o Divino Tropeiro; Nossa Senhora, a Primeira Prenda do Céu; Deus, é o Patrão Celeste e, o Espírito Santo, o Espírito Santo Vaqueano. Uma Igreja nos galpões! A liturgia tradicional (a missa) adaptada ao regionalismo gaúcho. O Padre Paulo Aripe de Uruguaiana – o “Padre Potrilho” – (auxiliado no início pelo Pe. Amadeu Gomes Canelas), é reconhecido hoje como o criador da Missa Crioula. Com o tempo, não só o RS criou uma liturgia própria mas, também, outros Estados do Brasil, enriquecendo, assim, a cultura popular brasileira. Digna de registros, podemos citar: A Missa do Vaqueiro Um “tradicional evento religioso católico”, realizado à céu aberto. Conforme pesquisadores, a primeira foi realizada em 1970 (19 de julho), criação do Pe. João Câncio dos Santos, do repentista Pedro Bandeira e Luiz Gonzaga. Nasceu em um ato de comoção pelo assassinato do vaqueiro Raimundo Jacó. Teve origem no Estado de Pernambuco. A Missa Sertaneja É oficiada nas “Festas de Peão de Boiadeiro”. O termo é usado em razão das canções litúrgicas serem “ao estilo caipira”. Comum em vários Estados: São Paulo, Goiás, Paraná, Minas Gerais,… Em Canela, a primeira Missa Crioula aconteceu na então Praça das Nações (frente ao Palácio das Hortênsias) na década de 1960, oficiada e cantada pelo CTG Rincão da Lealdade de Caxias do Sul. E hoje, podemos assistir essas celebrações, principalmente na Semana Farroupilha, em vários locais: Missa Crioula: Paróquia Nossa Senhora de Lourdes (Catedral de Pedra). Culto Gaúcho: Igreja Evangélica de Confissão Luterana São João. Culto Gauchesco: Congregação Evangélica Luterana Cristo Redentor. Cada um, a seu modo, divulgando em nome da fé, a tradição, o folclore, usos e costumes do Rio Grande do Sul… a nossa terra!