Uma antiga reivindicação da população em geral foi inicialmente atendida na segunda-feira (25). Uma operação integrada entre a Prefeitura, Brigada Militar (BM), Polícia Civil e Receita Federal removeu barracas e dispersou ocupações irregulares do passeio público que estavam ocorrendo no entorno da Catedral de Pedra, principal ponto turístico de Canela e uma das sete maravilhas do Brasil. Ao todo, 56 agentes participaram da ação, que buscou restabelecer a circulação de pedestres e turistas, padronizar o uso do espaço público e coibir a comercialização de produtos sem nota fiscal. Houve apreensão de mercadorias e registro de um episódio de detenção, que circulou nas redes sociais, devido à resistência de um indígena após receber ordem da Brigada Militar. O tema está longe de ser episódico. Há anos, o entorno da Catedral concentra tensionamentos entre ordenamento urbano, economia local e o espaço para o artesanato indígena no circuito turístico. APARATO de segurança e fiscalização foi empregado na retirada das barracas que ocupavam o passeio públicoFoto: Izaque Santos A Prefeitura sustenta que as intervenções foram embasadas em normas municipais e federais e em um decreto que veda comércio ambulante naquela área. Lideranças empresariais, por sua vez, defendem a retirada das estruturas e propõem que um espaço específico para a venda de artesanato indígena — com regras claras e fiscalização – seja viabilizado. O secretário municipal de Trânsito, Transportes e Fiscalização, Adriel Buss, detalha os fundamentos e próximos passos. Sobre a base jurídica e o porque da retirada do comércio irregular que ocorria no calçamento da Catedral de Pedra, realizada nesta semana, ele afirma. “A retirada se baseou em legislações municipais, federais e de trânsito, que exigem alvará, proíbem ocupação irregular de vias, asseguram acessibilidade, proteção ao consumidor e coíbem descaminho. A principal base jurídica vem da Constituição Federal, especialmente nos artigos 30 e 37”. O comércio irregular de produtos sem origem comprovada era realizado por indígenas da etnia Kaingang, conforme Buss. “Somente indígenas Kaingang de diferentes cidades, chegando a cerca de 20 barracas, ocupavam o espaço de forma irregular. A operação do dia 25 é parte integrante de outras ações setorizadas que visam combater todas as atividades ilegais praticadas nos arredores da Igreja de Pedra”, conta o secretário. Sobre a procedência dos itens, Buss explica que “os produtos eram estrangeiros, em sua maioria chineses, sem nota fiscal e com indícios de descaminho. Foram recolhidos pela Receita Federal.” Indagado sobre a volta das barracas, ainda que restritas ao artesanato indígena, o secretário afirma que no entorno da Catedral de Pedra isso não é possível, em razão do Decreto nº 9.530/2022, que veda qualquer comércio ambulante naquele perímetro. Segundo ele, o município pode avaliar áreas alternativas em outros pontos da cidade, com regras claras e licenciamento. MONITORAMENTO DAS FORÇAS DE SEGURANÇA Mas como será a rotina após a ação de segunda-feira, dia 25? “Haverá monitoramento permanente com apoio da Brigada Militar, Polícia Civil e Receita Federal. O paisagismo com vasos também atua como barreira física e valorização urbana”, responde Buss. Sobre o destino dos artigos apreendidos ele esclarece que “todo o material foi recolhido pela Receita Federal, que fará a destinação conforme a lei.” BM e Polícia Civil estarão atentas ao possível retorno do comércio irregularFoto: Arthur Dias A detenção de um indígena depois de suposta agressão a um agente da lei registrada em vídeo gerou questionamentos. “Na minha visão, a atuação da Brigada Militar foi legítima, totalmente dentro da legalidade ao imobilizar um indígena que agrediu servidores, especialmente uma mulher. A ação foi legítima e necessária, ainda que o ato tenha aparentado uma clara encenação para vitimização, com objetivo de descredibilizar a ação legítima do município”, avalia Buss. O secretário ressalta que há espaço para negociação visando a instalação de um comércio de artesanato indígena em outro ponto da cidade. “O município permanece aberto ao diálogo e à construção de alternativas, avaliando possibilidades em conformidade com a legislação e o interesse público, para comércio exclusivo de comercialização de artesanato indígena”, garante Buss. O IMPACTO PARA O TURISMO E o COMÉRCIO Além da limpeza visual e do possível fim do comércio irregular no passeio público em torno da Catedral de Pedra, a operação conjunta repercutiu no comércio formal da cidade. O presidente da Associação Comercial e Industrial de Canela (ACIC), Maurício Boniatti, descreve a posição dos associados e sua visão sobre os impactos para o turismo gerados com a desinstalação das barracas onde eram vendidos itens sem comprovação fiscal. “De maneira alguma somos contra os povos originários ou contra os indígenas venderem o seu artesanato. Bem, pelo contrário, até pode ser um atrativo, é importante preservarmos a história, reconhecermos a importância da história e é um atrativo para a cidade. Mas da maneira que estava sendo feito ao redor da igreja, isso é irregular. Acho que vai melhorar sim, porque vai ficar mais bonita a nossa Catedral, tirando aquelas barracas que estavam ao redor”, opina Boniatti. Cerca de 20 barracas foram retiradas das calçadasFoto: Arthur Dias “Não sei o que vai acontecer agora, mas eu concordo com o que foi feito. Eu acho que tem que haver negociação, tem que haver diálogo, mas eu acho que eles têm que seguir nossa legislação também. Torço para que se chegue a alguma solução, para que seja resolvido isso, e espero, da melhor maneira, que seja bom para os dois lados. Na verdade, não são os dois lados, é o mesmo lado. São todos cidadãos brasileiros”, completa Boniatti. “Agora, é conversar, arrumar outro lugar para os indígenas para eles comercializem só os produtos deles mesmos, porque é uma concorrência muito desleal com o empresário que paga imposto, que mantém a sua documentação em dia, seus impostos em dia, que contribui para a cidade pagando imposto. É uma concorrência muito desleal mesmo”, finaliza o empresário. DESAFIO Entre a legalidade invocada pelo poder público, a necessidade de isonomia tributária e a defesa de espaços para o artesanato indígena, o município promete monitoramento permanente no entorno da Catedral. O desafio, agora, é transformar a operação de segunda-feira em um arranjo duradouro:
Sabores de Canela 2025 inicia na próxima semana e une gastronomia, cultura e turismo
De 04 a 21 de setembro, o festival de gastronomia e cultura promete movimentar a cidade e encantar moradores e turistas com um roteiro de sabores e experiências inéditas. Com a participação de 11 restaurantes, 10 pousadas e hotéis, e 7 dos famosos parques temáticos, o Sabores de Canela convida o público a uma verdadeira jornada de descobertas. Moradores e turistas poderão percorrer os estabelecimentos participantes para degustar pratos e receitas – doces e salgados – criados exclusivamente para o período do festival. A proposta é oferecer uma imersão completa nos sabores da culinária serrana, valorizando ingredientes locais e a criatividade dos chefs. O coração do festival está nos pratos criados especialmente para a ocasião. Os valores variam entre R$ 36 e R$ 99, dependendo se a criação é um prato salgado ou sobremesa, de acordo com o prato e o restaurante. Os pratos podem ser adquiridos diretamente nos estabelecimentos participantes ou através dos canais oficiais de cada um. Confira a lista dos restaurantes e suas criações: Fotos dos pratos: Vinicius Oller Panni Padaria artesanal e Brunch: Croissant Serrano; Lá Estación – El Mejor Asado: Hamburguer El Serrano; Pappardelle Massas Finas: Nhoque de Laranja; Restaurante Galangal: Paçoca Thai; Magnólia: Polenta Al Bosco; Tango Canela: La Cumparsita (canelone de costela); O Maquinista: Parmegiana aos Cogumelos; Empório Canela: Tortéi Sabores da Serra; Containner Bistrot: Nhoque, Cogumelos e Pinhão; Velha Bruxa: Mini Sorvete ao forno; Capullo: Cotoletta à Milanesa. SERVIÇO Workshop gratuito de massas e molhos Italianos Super oportunidade para os amantes da boa gastronomia! Aprender a fazer massas e molhos é uma mão na roda não só para o dia a dia, mas também para as ocasiões em que precisamos improvisar um jantar especial de última hora. Os interessados já podem garantir seu lugar em uma das experiências mais saborosas da programação do Sabores de Canela 2025. Estão abertas as inscrições para o Workshop de Massas e Molhos, uma oficina gratuita e prática que acontecerá no dia 6 de setembro, um sábado, das 9h30 às 12h, na cozinha-escola da UCS Canela (Campus Universitário da Região das Hortênsias). A aula é um convite para colocar, literalmente, a mão na massa. Os participantes aprenderão o passo a passo da produção de uma autêntica massa fresca artesanal, descobrindo técnicas e segredos para alcançar o ponto perfeito. As vagas para o workshop são gratuitas, porém limitadas. Interessados devem garantir sua participação o quanto antes para não ficar de fora desta jornada gastronômica que encerra com almoço de confraternização com a degustação dos pratos preparados. Informações e inscrições podem ser realizadas pelo @festivalsaboresdecanela
Social da Samanta – 691
Dona Rosa com Caren e Lenise Urbani, fundadores do Parque Mundo a Vapor, com o sócio Aldair Machado no lançamento do documentário sobre a história do empreendimento. Foto: Divulgação EVENTO GRATUITO! Dia 2 de setembro no CIDICA das 9h às 17h uma programação incrível no “Simpósio Canela no enfrentamento à violência doméstica” com palestras, depoimentos, exibição de documentário e a participação de Maria da Penha Maia Fernandes ao vivo de modo virtual para contar sua história que marcou a justiça brasileira. A RP Camila Oliveira no evento que reuniu personalidades do cinema e convidados no Buona Vitta, durante a Feijoada das Estrelas! Foto: Samanta Vasques Gabriela Bairros curtindo as mais badaladas festas do Festival de Cinema! Foto: Samanta Vasques Renan Wender e Bruna Oliveira na Winter Festival da Carpe Vita, que aconteceu na Casa do Campo! Foto: Samanta Vasques Nos 3 anos do Capullo, em Canela, os sócios Fernando Shimanoski, Felipe Tomasi e Roberta Rech Foto: Clara Beatriz
Social da Bina – 691
Xamã, escolhido como Melhor Ator Coadjuvante do Festival de Cinema, no Buona Vitta para a Feijoada das Estrelas Foto: Divulgação E atriz gaúcha Vitória Strada passou por Gramado durante o Festival de Cinema, e também foi desfilar simpatia na Feijoada das Estrela nos Buona Vitta Foto: Divulgação Marcos Müller e Eduarda Almeida e anunciaram o noivado nesta semana, logo após os aniversário dela Foto: Divulgação Daniel e Victória Bertolucci com Marcos Ruback Schmidt do Dubdogz no Sunset das Estrelas no Olivas de Gramado Foto: Alisson Moura Ela trabalha. Ela curte. A jornalista Luciane Martins foi presença nos eventos do Festival de Gramado Foto: Divulgação
Roupa de festa nos pratos rústicos
Arika Messa, chef de cuisine gaúcha, mora em Canela desde 2016, após conhecer e começar a trabalhar na região em 2009. Formada pela primeira turma de Gastronomia da Unisinos, construiu uma carreira unindo conhecimento, técnica, carinho e valorização dos produtos do terroir local. A notoriedade maior veio agora, quando foi recentemente à final do reality show Chef de Alto Nível, da Globo. Conseguimos de Arika a resposta para três perguntas: Você acha que o seu jeito simples e seu apego à regionalidade, somados à qualidade da sua culinária, contribuíram para essa excelente participação no reality? Com certeza. Foi uma estratégia que eu idealizei, para ter pratos e preparações pré-definidos porque nesta plataforma não teria tanto tempo para pensar. Então eu tinha minhas cartas na manga, tinha receitas minhas com identidade regional. A gente sempre consegue colocar uma roupa de festa nestes práticos rústicos. Minha aposta deu certo. Procurei fazer uma gastronomia em que eu acredito e, com ela, apresentei para o Brasil a minha personalidade. Até que ponto o fato de você estar praticando sua culinária no Rio Grande do Sul, mais precisamente na Serra e em Canela, aprimora a sua arte de cozinhar? A escolha de morar na Serra Gaúcha com qualidade de vida é um dos fatores cruciais. Aqui temos produtos incríveis. O “hortifruti” daqui é diferenciado, trabalhamos muito forte com cordeiro, queijo serrano, charcutaria, os embutidos… tudo tem uma excelência, um terroir maravilhoso. Isso impacta muito na criação dos menus. Eu estando aqui e sendo professora no Senac, com os alunos aprimoramos receitas e técnicas, com constância (a mesma que apresentei no programa). A constância é fundamental para ser uma chef de sucesso, e metade desse sucesso vem da escolha de produto e local. Escolhendo viver aqui eu tive esse tempo para escolher. Você já declarou que a gastronomia é uma poderosa ferramenta de inclusão e transformação. Explique isso. Tenho como missão de vida formar novos profissionais, como professora de gastronomia, orientadora, chef e líder. Procuro passar adiante esse legado, conhecimento, principalmente para os mais jovens. Tenho a missão de transformar vidas através da gastronomia e da educação voltada para o trabalho na cozinha. Cito o chef Rodigo Belora: “a gastronomia é a grande rede social do mundo.” Ela é poderosa. Tem pessoas de todos níveis, classes sociais, dentro de uma cozinha. Se hoje sou uma referência, posso me emocionar (e às vezes, me chocar um pouco!). Somos referência de superação, de batalha, de luta, de conquista. A maior ferramenta minha é passar adiante meu trabalho na cozinha e minhas histórias. Agora, com a repercussão do programa, vamos levar mais longe o fato de que trabalhar na cozinha é bacana, alegre, em parceria. É missão dada e missão cumprida. TRÊS DICAS DO PATRONO Clayton Oppitz (abaixo), proprietário da Livraria Bambu e patrono da próxima Feira do Livro Josué Guimarães, de Canela, sugere e opina sobre essas boas leituras: Em agosto nos vemos – Gabriel García Marquez“A trama (comportamental) fala daquela noite, única e sempre emagosto, em que a pessoa não resiste e se porta de maneira diferente da habitual”. O apocalipse dos trabalhadores – Valter Hugo Mãe “Diz respeito ao esforço e aos diferentes caminhos que duas mulheres escolhem para obter ascensão na sociedade”. Em busca de sentido – Viktor Frankl “Um clássico do pai da Logoterapia, que todos deveriam ler. O autor (abaixo) sobreviveu a um campo de concentração nazista, de onde saiu pesando 34 quilos. Conta como as pessoas reagem (ou não) quando têm (ou não) o sentido da vida”. CRIANÇA GOSTA DE PIPOCA Há tempos atrás escrevemos aqui na coluna sobre o carisma de Marcio Luciano Wilbert com a plateia, ao apresentar o show da Noite Gaúcha na Garfo & Bombacha. Além do profissional competente no manejo da carne, açougueiro que é e cursando Gastronomia, agora o Pipoca (como é conhecido), transporta sua simpatia para o papel. Em um livreto para crianças colorir, conta sua história. “O Menino Pipoca” terá lançamento no Açougue Gallas em Canela, no domingo (30), a partir da 10:30h. Está à venda na Livraria Bambu. Estará na Feira do Livro de Canela.
Da horta ao molho: memórias,ervas e técnica
Caro leitor, Uma pergunta que sempre me fazem — entre clientes, amigos, entrevistadores — é: qual é a minha inspiração? Hoje começo a contar um pouquinho de como isso acontece, e começo pelas hortaliças. Vamos lá! Acordo. Tomo um bom café. O verde à minha frente é inspirador. Planejo mentalmente mais um dia de trabalho — e isso me enche de alegria. A primeira coisa que faço é pegar faca, tesoura, luvas, sacola e ir à horta. O colorido que brilha à luz do sol — tons de verde, amarelo, vermelho, laranja — me fascina; e o cheiro que sinto, uma mistura de ervas com terra molhada, me inebria. Lá vou eu. Alecrim, tomilho, sálvia, salsinha, salsão, cebolinha, alho‑poró, orégano, dill (endro), louro, manjerona, manjericão, anis‑estrelado e algumas pimentas diretamente do pé. Caminho mais um pouco em direção à cebola, ao alho e, depois, à cenoura. Pronto: já tenho tudo de que preciso.Olho, cheiro, sinto e penso: vou buscar no meu repertório toda a familiaridade — memórias das melhores cozinhas da minha vida. Eu sentia, aos domingos, o manjericão avisando que aquele seria um dia de massas. De repente, o alecrim se anunciava, ousado, e eu sabia: era vitela ao forno com talharim ao sugo. É bem italiano, não é? Mas isso é outra história. Ainda assim, todas essas memórias me servem de repertório. Brasileira, de descendência italiana, trago um acento mediterrâneo que, a cada dia, me lembra minhas limitações. Sou rica em cores, aromas e sabores, mas tenho muita coisa para conhecer. Acho que essa é a maior lição. Na cozinha, a arrogância não combina: preciso sentir, cheirar, provar, errar, corrigir, acertar — todos os dias, absolutamente todos os dias.Saber o que combina com o quê e como cada coisa vai inspirar o prato perfeito é instinto, prazer e laboratório — muito laboratório. O bouquet garni é um conjunto de ervas que aromatiza o cozimento. Normalmente, elaboro o meu com ervas de uso geral; posso aproveitá‑lo tanto para carnes quanto para peixes. Minha composição básica usa o alho‑poró como envoltório, além de aipo, talos de salsinha e louro — combinação imprescindível na minha cozinha. Faço cilindros de alho‑poró recheados, amarro com barbante próprio para culinária e reservo. O mirepoix também entra em cena: uso muito e para tudo. Preparo a cebola, o alho, a cenoura, o aipo e, particularmente, acrescento alho‑poró ao meu mirepoix. Mise en place pronto! Hora de selar as carnes, queimar a panela, usar um pouco de álcool para aproveitar o fundo e levar ao forno para exalar os aromas. Levo novamente a panela ao fogo, retiro as carnes e refogo o mirepoix. Devolvo as carnes à panela, cubro com água e exercito a paciência — muita paciência. O cozimento deve ser lento, sem fervura, e é preciso ir retirando toda a gordura que se forma na superfície. Para o grand finale: coar e desengordurar cuidadosamente para retirar qualquer resíduo de gordura e obter um caldo limpo, brilhante e saudável. Voilà: começa o preparo do molho incrível para o almoço de domingo. Bon appétit!
Você não vai perder seu emprego para a IA, mas para alguém que sabe usá-la
Ainda em clima da Expert 2025, realizada em São Paulo no mês passado, sigo refletindo sobre um tema que me chamou muita atenção: o impacto da inteligência artificial (IA) nos investimentos e no mercado de trabalho. Quem já utilizou esses programas da forma correta sabe do que falo: a IA reduz drasticamente o gap de conhecimento entre especialista e leigo. Essa transformação já está mudando a relação entre assessores, gerentes e clientes. Não vejo a IA como ameaça às profissões, mas como uma nova era que exige adaptação. Reagir com “ludismo” — como aqueles que destruíam máquinas na Revolução Industrial — certamente não é a saída. Dias atrás, li um estudo da Microsoft que reforça essa percepção. A empresa analisou 200 mil interações com o Copilot (o “ChatGPT” da Microsoft) e listou as 40 profissões mais expostas à inteligência artificial generativa. O resultado surpreende: não são os empregos manuais que correm maior risco, mas sim boa parte da elite educacional e intelectual. No topo do ranking estão intérpretes, tradutores e historiadores. Em seguida, professores universitários, jornalistas, escritores, cientistas políticos e até matemáticos. Profissões que exigem anos de estudo, mas que dependem justamente de síntese, interpretação e produção de conteúdo — áreas em que a IA já mostra desempenho impressionante. Não à toa, empresas americanas como Amazon e IBM vêm cortando vagas e congelando contratações, alegando ganhos de produtividade. Jensen Huang, CEO da Nvidia, resumiu com a frase que intitula esta coluna: “Você não vai perder seu emprego para a AI, mas para alguém que sabe usá-la.” O detalhe mais inquietante é que a maioria das profissões em risco exige diploma universitário: analistas de mercado, planejadores financeiros, revisores, apresentadores de rádio, desenvolvedores web. Já ocupações manuais, antes vistas como menos complexas, aparecem entre as menos afetadas: bombeiros, pedreiros, borracheiros, instaladores, técnicos de ar-condicionado, cuidadores de idosos. A lógica é clara: por mais sofisticada que seja, a IA não carrega uma pessoa para fora de um prédio em chamas nem conserta um motor na estrada. Essas funções exigem presença física, improviso e empatia em situações imprevisíveis. Outro dado interessante: os investimentos em data centers nos Estados Unidos já superaram os gastos com escritórios comerciais. O símbolo da era da IA não é mais o analista no cubículo com café na mão, mas sim o servidor rodando 24 horas por dia. Enquanto empregos de escritório encolhem, o pedreiro que ergue o prédio e o eletricista que resfria as máquinas seguem indispensáveis. A conclusão da Microsoft converge com as projeções do Bureau of Labor Statistics dos EUA: o setor de saúde e cuidados pessoais deve liderar a criação de vagas na próxima década. Uma tendência explicada pelo envelhecimento da população, mas também pelo fato de que profissões ligadas ao cuidado humano seguem imunes à automação. O recado é direto: o diploma ainda tem valor, mas deixou de ser escudo. Virou ferramenta — e pode virar sucata se não for bem utilizado. Para nós, que atuamos no mercado financeiro, não adianta lutar contra a IA: precisamos aprender a usá-la como alavanca. Repito isso toda semana aos meus sócios na Black Investimentos. Empatia, relacionamento e proximidade com o cliente serão cada vez mais valorizados, pois olhar alguém nos olhos e criar confiança nenhuma máquina consegue fazer, ainda…
O ESPAÇO PÚBLICO PRECISA SER PÚBLICO
Existem alguns que pensam e preconizam que tudo o que é público não tem dono, quando o significado real é a existência de muitos proprietários, ou seja, a totalidade da população. As Constituições, as Leis Orgânicas e os Decretos tratam de regulamentar o uso de espaços para que todos possam ter direito a eles. Por óbvio, o descumprimento à norma civilizatória de uso do bem público é crime e, como tal, deve ser tratado, independentemente de isso agradar ou não aos apaixonados pela baderna e aos desocupados que incentivam o conflito, usando, muitas vezes, crianças ou a ingenuidade humana para manipular seus interesses escusos. Canela vivencia, já há alguns anos, o uso de espaços públicos por meia dúzia de espertalhões, muitas vezes vindos de outras cidades para explorar o turista, que foram se apropriando de praças, calçadas, logradouros e até do leito de algumas ruas, como se esses espaços fossem desnecessários ao público em geral. A fiscalização da Prefeitura Municipal de Canela merece o respeito, a solidariedade e o aplauso de toda a população, assim como a força policial, que age em defesa do bem comum, cumprindo o dever de proteger a sociedade de quem pratica comércio ilegal apresentado como artesanato; gêneros alimentícios processados como se fossem de agroindústria familiar; e comércio ambulante sem procedência identificada, competindo com quem paga aluguel e suporta pesada carga tributária, além de gerar empregos e oportunidades para quem aqui vive. Entre outros aspectos legais, o Estatuto da Cidade, Lei nº 10.257, de 2001, que regulamenta os artigos 182 e 183 da Constituição, segue vigente e precisa ser respeitado, principalmente quando se trata do aspecto democrático, que prevê a escuta da população, em especial, da vizinhança dos espaços públicos em questão. Não é porque meia dúzia grita alto, afronta o Poder Público, com a aquiescência de alguns desinformados ou de má-fé, que a Cidade deve se transformar no paraíso de sonegadores. Todos os envolvidos na retomada dos bens e espaços públicos para o público merecem aplausos.
De boca em boca
No começo, o homem usava a boca, praticamente, somente para comer. Depois, com alguns sons “guturais”, já se comunicava. E, segundo pesquisas, ainda nas cavernas, começou a emitir sons direcionados ao que lhe rodeava: a caverna, o trovão, o animal selvagem, o relâmpago… Nascia a comunicação através da palavra. Mário Souto Maior em “Nordeste: a inventiva popular” traz vários exemplos do folclore sobre o assunto: – À boca pequena – Na “surdina”. – Bate-boca: Briga, discussão. Desentendimento. – Boca-de-forno: Brincadeira infantil em que são postas à prova a destreza e a coragem dos participantes. – Boca-de-chupar-ovo: Boca muito pequena. – Botar a boca no mundo: Esbravejar. Espalhar segredos, fazer acusações. – Não ter boca pra nada: Ficar sempre calado. – Ser bom de boca: Ter muito apetite. Ser comilão. – Tapar a boca (de alguém): Usar de propina, fazer chantagem. – Com a boca na botija: Alguém ser pego em flagrante. – Morrer pela boca: Abusar dos prazeres da mesa. Ser comilão, não importar com a saúde. – Na boca do povo: Notícia de que todos são sabedores, a qual, todos comentam. Todo mundo sabe. – De boca aberta: Alguém ficar admirado. Ser surpreendido com algo difícil de acreditar. – Fazer uma boquinha: Participar parcialmente de uma refeição. Comer pouco. – Encher a boca: Vangloriar-se. Exibir-se. – Ficar com água na boca: Gostar. Desejar muito, algo. Sentir fome. Provérbios sobre a Boca – Boca fechada, não entra mosca. – Boca calada, é remédio. – Quem tem boca, vai à Roma. – Boca fala, boca paga. – Na boca dos discretos, o público é secreto. – Na boca do mentiroso, o certo é duvidoso. Finalizando o mês de agosto (do folclore): Mário Souto Maior, vale lembrar, é um dos mais importantes pesquisadores do Brasil. “Retratista da terra e da gente, analista da alma popular, guardador cioso do imenso repositório folclórico” ele – a cada livro editado – entregou um pouco da cultura popular que fala desse Brasilzão de Deus… a nossa terra!